Entre cartas, dados e tabuleiros: como brincar pode aproximar pessoas

Mais do que entretenimento, jogos de tabuleiro criam momentos de convivência, estimulam habilidades e ajudam a fortalecer vínculos entre diferentes gerações

Em uma época em que boa parte das interações acontece por meio de telas, reunir a família ou os amigos ao redor de uma mesa pode parecer um gesto simples. É justamente nessa simplicidade que os jogos de tabuleiro encontram uma de suas maiores forças.

Cartas, peças, dados e tabuleiros criam uma oportunidade para estar junto de verdade. Enquanto uma partida acontece, surgem conversas, risadas, pequenas provocações, estratégias e até frustrações. São experiências compartilhadas que ajudam a construir memórias e aproximar pessoas.

Uma pesquisa publicada na revista Family Relations analisou a percepção de crianças, pais e avós sobre jogos de tabuleiro entre diferentes gerações. Os participantes apontaram a atividade como uma forma de passar tempo juntos, compartilhar valores e experiências e compreender melhor uns aos outros. O estudo também identificou o potencial dos jogos para fortalecer vínculos familiares e favorecer a comunicação.

Um jogo também ensina a conviver

Ganhar nem sempre é o mais importante em uma partida. Saber esperar a vez, respeitar regras, lidar com a frustração de perder e comemorar uma conquista fazem parte da experiência e podem transformar a brincadeira em um exercício de convivência.

Uma pesquisa publicada em 2025, que observou crianças e adultos mais velhos durante partidas de jogos de tabuleiro, identificou comportamentos como ajudar, compartilhar, confortar e elogiar. Os participantes também apresentaram emoções positivas durante as atividades.

Isso ajuda a explicar por que uma partida pode significar muito mais do que algumas horas de diversão. Ela cria situações em que as pessoas precisam ouvir, negociar, tomar decisões e reagir umas às outras.

Quando gerações diferentes se encontram

Outro aspecto interessante é a capacidade dos jogos de aproximar pessoas de idades diferentes. Uma criança pode ensinar uma regra ao avô, um adulto pode descobrir uma nova estratégia com o filho e alguém que costumava apenas assistir pode se tornar o jogador mais competitivo da mesa.

Essa troca também permite que cada geração compartilhe um pouco de sua maneira de pensar e de enxergar o mundo. Segundo o estudo realizado com famílias, os jogos favoreceram não apenas a aproximação, mas também a compreensão entre diferentes gerações.

O cérebro também entra na brincadeira

Além da convivência, os jogos podem estimular diferentes habilidades cognitivas. Dependendo da proposta, uma partida pode exigir memória, atenção, raciocínio, planejamento, tomada de decisões e resolução de problemas.

Uma revisão sistemática sobre o uso de jogos de tabuleiro encontrou efeitos positivos em diferentes áreas, incluindo funções cognitivas, aprendizagem e interação entre os participantes. Os pesquisadores, no entanto, destacam que os resultados variam conforme o tipo de jogo e o contexto em que ele é utilizado.

No fim, talvez um dos maiores benefícios esteja justamente naquilo que não aparece no tabuleiro: o tempo dedicado ao outro.

Uma partida pode durar vinte minutos ou uma tarde inteira. Pode terminar em comemoração, revanche ou em uma promessa de “vamos jogar de novo”. Mas, quando as peças são guardadas e a mesa volta a ficar vazia, permanece algo que nenhum jogo consegue contabilizar em pontos: a lembrança de ter estado junto.

Em meio à rotina acelerada, reservar um momento para brincar pode ser uma maneira simples de recuperar algo que muitas vezes acaba ficando em segundo plano: a presença.