Gloria Steinem, símbolo do feminismo americano, morre aos 92 anos

Jornalista transformou sua atuação profissional em uma longa trajetória de defesa da igualdade e dos direitos das mulheres

Gloria Steinem, uma das mulheres mais importantes da história do movimento feminista nos Estados Unidos, morreu aos 92 anos em Nova York. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (3) pela fundação que leva seu nome. Segundo a organização, ela estava em casa e acompanhada por pessoas próximas.

A morte encerra uma trajetória marcada pelo jornalismo, pela militância e por uma presença constante nas principais discussões relacionadas aos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Durante décadas, Steinem ajudou a colocar questões que muitas vezes eram tratadas como assuntos privados no centro do debate público.

Sua história começou nas redações. Como jornalista, ficou conhecida por trabalhos que buscavam revelar situações vividas por mulheres e que nem sempre encontravam espaço na imprensa tradicional. Entre eles está uma reportagem publicada em 1963 sobre a realidade das mulheres que trabalhavam nos clubes da Playboy. Para produzir o texto, Steinem chegou a trabalhar disfarçada em um dos estabelecimentos.

A experiência, porém, não seria o ponto definitivo de sua carreira. Alguns anos depois, seu contato com mulheres que defendiam o direito ao aborto ajudou a aproximá-la cada vez mais do movimento feminista. A partir daquele período, o jornalismo passou a dividir espaço com uma atuação política e social que ocuparia grande parte de sua vida.

Em 1972, Steinem participou da criação da revista Ms., publicação que se tornou uma referência para o feminismo americano. A revista abriu espaço para temas relacionados à vida das mulheres, desigualdade de gênero, direitos reprodutivos e participação feminina na sociedade.

Mas Gloria Steinem não ficou apenas atrás de uma mesa escrevendo. Ela passou boa parte da vida viajando pelos Estados Unidos para conversar com mulheres, participar de manifestações, visitar universidades e centros comunitários e discursar em diferentes espaços.

Sua atuação ajudou a aproximar o feminismo de mulheres que viviam realidades muito diferentes. Em vez de concentrar sua militância em um único ambiente, Steinem levou suas ideias para ruas, universidades, organizações e movimentos sociais.

Ao longo dos anos, também esteve envolvida na criação e no fortalecimento de organizações voltadas à participação das mulheres na política e à defesa de seus direitos. Entre as pautas que marcaram sua trajetória estiveram a igualdade profissional, os direitos reprodutivos, a violência contra as mulheres e a presença feminina nos espaços de poder.

O reconhecimento veio também institucionalmente. Em 2013, Gloria Steinem recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, uma das maiores honrarias civis concedidas pelo governo dos Estados Unidos.

Sua trajetória ainda foi retratada no cinema. O filme “As Vidas de Gloria”, lançado em 2020, apresentou diferentes momentos de sua vida e de sua atuação como jornalista e ativista.

Nos últimos anos, Steinem continuou ligada à escrita e aos encontros com outras pessoas. Também promovia conversas em sua própria casa, mantendo uma característica que acompanhou sua trajetória: o interesse em ouvir histórias e transformar experiências pessoais em discussões capazes de alcançar a sociedade.

Gloria Steinem deixa um legado que vai muito além das publicações que ajudou a criar ou dos discursos que fez ao longo da vida. Sua atuação contribuiu para ampliar o espaço ocupado pelas mulheres no debate público e para transformar reivindicações femininas em questões políticas e sociais de grande alcance.

Aos 92 anos, ela se despede deixando uma história profundamente ligada às mudanças sociais de seu tempo e à luta por uma sociedade em que mulheres tenham mais liberdade, direitos e oportunidades.