Editorial | O caso Thor não é apenas sobre um cachorro. É sobre a forma como uma sociedade revela sua humanidade diante daqueles que não têm voz. 

A Polícia Civil vai esclarecer o que aconteceu na Avenida Bandeirantes. Mas a morte de Thor também escancara uma discussão que a sociedade ainda insiste em adiar: afinal, quanto vale a vida de um animal?

(Editoral – Jornalista Vivian Helen)

Talvez essa seja uma data que São Roque leve consigo por muito tempo.

Na noite do último domingo, 19 de julho, Thor foi atingido por um disparo de arma de fogo na Avenida Bandeirantes. Ainda ferido, correu em busca de abrigo até o interior do Supermercado São Roque, onde caiu. Pessoas que presenciaram a cena tentaram ajudá-lo. Uma equipe veterinária prestou os primeiros socorros e o encaminhou para uma cirurgia de emergência.

Havia esperança. Mas, na madrugada de 20 de julho, Thor não resistiu aos ferimentos.

Desde então, São Roque parece dividida entre duas versões, duas famílias e uma pergunta que ainda não tem resposta.

A Polícia Civil fará o que lhe cabe: ouvir testemunhas, analisar provas, confrontar depoimentos e esclarecer o que realmente aconteceu naquela noite. É assim que deve ser.

Mas existe uma reflexão que não depende do encerramento do inquérito.

Ela depende apenas da nossa capacidade de olhar para a vida com mais sensibilidade.

São Roque é uma cidade que tem um cachorro como um dos seus maiores símbolos.

Basta entrar na Matriz, caminhar pelas ruas do Centro ou observar as imagens do padroeiro. São Roque nunca aparece sozinho: aos seus pés está um cachorro.

Não por acaso. Segundo a tradição cristã, quando São Roque foi acometido pela peste e precisou viver isolado, um cachorro passou a levar pão diariamente para alimentá-lo. Foi esse animal que permaneceu ao lado do santo quando muitos se afastaram, tornando-se um símbolo de lealdade, cuidado e compaixão.

É impossível não lembrar dessa imagem diante da morte de Thor.

Uma cidade que cresceu sob esse símbolo deveria ser, naturalmente, uma cidade onde a vida animal fosse compreendida como algo precioso.

Mas a verdade é que ainda estamos longe disso. Ainda custa à sociedade entender que os animais não são objetos, não são coisas e não são bens descartáveis.

Os animais são seres sencientes. Sentem dor. Sentem medo. Criam vínculos. Sofrem. Demonstram afeto. Reconhecem quem os ama. Sentem a ausência de quem parte.

E, mais do que isso, possuem direitos.

A legislação brasileira evoluiu muito nos últimos anos ao reconhecer que os animais merecem proteção e que os maus-tratos devem ser punidos. Ainda assim, uma parte da sociedade continua tratando suas vidas como se valessem menos.

Como se fossem substituíveis, como se sua morte fosse apenas um detalhe — e não é. Thor tinha um nome, uma família, pessoas esperando por ele em casa. Tinha uma história.

Isso, por si só, já deveria ser suficiente para que sua morte fosse lamentada.

Ao mesmo tempo, também existe outra família que afirma ter vivido momentos de medo naquela noite. Essa versão precisa ser respeitada e investigada. É justamente por isso que qualquer julgamento precipitado seria irresponsável.

Mas uma investigação criminal não impede uma reflexão moral.

Pelo contrário.

Ela nos obriga a pensar.

Até quando vamos demorar para entender que proteger os animais não é exagero?

Até quando a compaixão será tratada como fraqueza?

Até quando será necessário lembrar que uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não se mede apenas por seus prédios, suas empresas ou seu crescimento econômico, mas também pela forma como trata aqueles que não têm voz?

No fim, talvez o caso Thor não fique marcado apenas pelo resultado da investigação. Talvez ele fique marcado por outra pergunta:

O que uma cidade que tem um cachorro eternizado aos pés do seu padroeiro pode aprender com a morte de Thor?

Espera-se que a resposta não venha apenas dos autos do processo.

Mas também da consciência de cada um de nós.

Porque uma sociedade que aprende a respeitar a vida animal não protege apenas os animais.

Ela se torna, inevitavelmente, mais humana.